domingo, 21 de abril de 2013

À Procura (parte 4)


Já fazia duas semanas desde que iniciei minhas andanças. Tenho certeza que fui para o sul. Consigo sentir o ar mais frio e a mudança de ambiente. Mas por quantos Estados passei? Será que ainda estou muito longe da fronteira?

Depois de muitas caronas e horas a fio caminhando, achei essa pequena cidade. Era pequena, praiana e um tanto paradisíaca. Havia algumas pessoas acampando por ali. Eram famílias inteiras, casais, e alguns viajantes solitários. Todos pareciam muito calmos, e um sossego sem igual pairava sobre eles.

Como se o mundo deles fosse de extrema tranquilidade.

Resolvi perguntar-lhes onde estava. Precisava saber em que local eu havia chegado, enfim. Aproximei-me do acampamento e disse em tom meio alto:

- Olá! Algum de vocês poderia me dizer qual é o nome dest...

Perdi as palavras.

Uma garota jovem, de cabelos vermelhos e com um sorriso muito maior que minha vergonha surgiu de uma das barracas próximas. Parecia ter um perfume natural.

- Que dizia, moço?

Recobrei a consciência o mais rápido que pude e respondi:

- Não, nada! É que cheguei aqui hoje pela manhã e ainda não sei que lugar é esse.
- Ah, aqui é São Francisco do Sul! É mochileiro?
- Hm, suponhamos que sim.
- “Suponhamos que sim”, repetiu ela em tom meio baixo, dando um sorriso solto.
- O que achou engraçado?
- Muita formalidade, moço! Mochileiro não fala assim não... Parece até que você tá no trabalho! Tudo aqui é casa, olha: areia, sol, barraca, peixe frito. Formalidade fica ali em Florianópolis. Aqui fica mais a fogueira pela noite e o violão e histórias pelo dia.

Tudo soou como um grande soco no estômago. Ainda não estava adaptado o bastante com a nova rotina, e isso foi rapidamente percebido por alguém que nem me conhece. Incrível. A depuração precisava ser bem mais profunda que imaginei. Estava entranhado em mim todos os costumes que me fadigavam, e até o momento ainda falava como se estivesse em reuniões para discutir quaisquer de minhas responsabilidades.

- Ainda tô me acostumando com esse novo ritmo, mas muito em breve já me solto mais.
- Tá bom, senhor “Muito Em Breve”. Tá com fome?

Tão pouco sabia daquela garota e tanto já me intrigava. Seu modo arisco e contraditoriamente cativante me fascinava! Comemos peixe assado e arroz cozido que o pessoal que viajava com ela fez. A comida era ótima, perto dos milhões de lanches que vinha comendo ultimamente. Depois ela me apresentou a todos. Contei de onde vinha, e alguns deles fizeram o mesmo. Bastantes histórias legais, que jamais diria ser verdade.

Bom, pra ser sincero, acreditei mesmo em uma ou duas.

Ficamos conversando por quase toda a tarde. O pessoal era tão alegre quanto a garota, e todos faziam questão de fazer eu me sentir em casa.

...

Precisei vir de tão longe para enfim me sentir “em casa”. Precisei abdicar da minha vida para descobrir que não a vivia. Precisei de uma mudança brusca para, então, perceber que a luz que conhecia nada mais era que uma fagulha, iluminando apenas alguns metros quadrados. Havia tanto para se ver, para se conhecer...

- O que há de errado com você? — Perguntou a garota, me arrancando do amontoado de pensamentos.
- Nada demais. Mas acho que já é hora de seguir jornada.
- Mas vai pra onde?
- Não sei. Quero chegar no Uruguai. De lá, não sei muito bem pra onde ir. Vou arranjar qualquer emprego pra continuar a caminhada.

Era hora de partir. Agradeci a todos pela hospitalidade e comecei a me retirar. Um minuto depois, um barulho de passos desordenados se fazia ouvir cada vez mais alto. Era ela, que vinha para se despedir:

- Ó, leva esses bolinhos! A gente tem um estoque cheio dessas coisas. São sempre um bom lanchinho.
- Obrigado!
- Boa sorte, viu?! E ó, se você não se acostumar com essa vida aqui você não chega no Uruguai não! Fica muito tempo parado, pensando. Tem que chegar e fazer logo, senão não faz mais.
- Haha, obrigado pela dica. Vou tentar.
- Tentar?! Ah, para com isso! Respira! E deixa chover.

...

 “Respira! E deixa chover”

“...deixa chover...”

Foi o que ela me disse pouco antes de acenar com um grande sorriso, virar as costas e voltar para seu grupo.

Se foi.

Não sei de onde veio, muito menos pra onde vai. Uma semana se passou desde que saí de São Francisco do Sul, mas ainda é impossível esquecer aquele espírito que de tão livre, tão solto, era quase possível ver suas asas. Uma pequena garota de cabelos tom vermelho-escarlate e de palavras cor de vida fresca.

E nem sei o nome dela.

Mas acho que há solução. Lembrarei dela pelo característica que mais me hipnotizava: os cabelos. Aquele emaranhado de fios dançando ao riso dos ventos e brilhando em tom escarlate.

Escarlate.

É, é isso. De agora em diante, nomearei minha mais inusitada inspiração dessa forma.

Espero te encontrar de novo, Scarlat. E enquanto não te encontro, vou respirar; deixar chover qualquer pensamento que me leve para frente, que me faça prosseguir, que me lave a alma exatamente do jeito que você fez.


Próxima parada, Rio Grande do Sul. Espero conseguir carona logo.


(continua)