sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Dê lírios

(Ela me olha?)
Petrifico-me. Não consigo me mover, desviar de seus ataques. Indefeso, inerte. Tudo isso apenas ao te ver. Estonteante, você vem. Começo a tremer. Vai me matar ou me trazer a vida? Sinto seu perfume cada vez mais forte, a entorpecer meus pensamentos e tirar-me do corpo. Mas você já foi. E nem sei mais onde estou, ou quem sou. Se passar por aqui de novo, por favor, deixe minha sanidade em cima da mesa e eu a pego assim que acordar.
 
(Ou sou eu que olho?)
Sinto-me hipnotizado ao tentar desemaranhar tamanho mistério que seus olhos passam. São como labirinto, no qual me perco com extrema facilidade — ruas e mais ruas sem saída. Caminho, então, em busca de algo que me faça te entender, na esperança de encontrar qualquer detalhe que exponha as brechas em sua armadura. Quem sabe, ao achar seu ponto fraco, consigo por fim te decifrar um pouco mais.
 
(Se ela sequer olhos tem.)
As pessoas dizem que eu devo parar de sonhar acordado, de falar sozinho, de imaginar coisas. Dizem que eu devia procurar um profissional e que eu ainda posso me recuperar.

Tolos. 

Não percebem o mal que isso poderia me fazer e o que isso implicaria para mim. Afinal, se eu parar de pensar em você, meu amor...


 

...você não vai mais existir.
 


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Heartache is a cold place

[Para ouvir enquanto lê: http://www.youtube.com/watch?v=ZyYCuLMBntU]



Eu ainda guardo conversas nossas dos tempos em que nos conhecemos e dos tempos em que éramos completamente conectados. Nos dias passados em que um completava o pensamento do outro. Acho que você também deve se lembrar disso.

Em meio a infinitos sentimentos, desvendávamos mistérios e desafiávamos a realidade. Encarávamos nosso próprio mundo. Fazíamos histórias e relutávamos a terminá-la apenas para não dar fim às vidas de nossos personagens, que então já se tornavam os nossos favoritos.

Quando saíamos, seus cabelos brilhavam ao sol. Seu aparelho dava um toque inocente ao sorriso que sempre dava após qualquer piada boba, ou após eu perder as palavras quase todas as vezes em que o azul-céu de seus olhos me encarava.

Você me quebrava de maneira tão simples! Me desestabilizava, me tirava o chão e me levava às nuvens. Perdi as contas das vezes em que me pegou sonhando acordado enquanto contávamos estrelas, deitados na grama de seu quintal. Nesses momentos, era como se fôssemos os únicos habitantes desse planeta.

E o mundo parecia tão pequeno.

O tempo não parecia ter fim.

Hoje, quando vou aos nossos pontos de encontro, ainda tento encontrar seu rosto em cada pessoa que passa por mim. Ao olhar pro céu, vejo que está quase do jeito que a gente se acostumou a vê-lo.

Quase.

Agora percebo que a beleza de tudo se foi junto contigo. Passaram-se anos, e só consigo pensar que o brilho das estrelas era, na verdade, o reflexo de cada parte de seu aparelho. Você sorria, as estrelas brilhavam. Você me olhava, a lua se enchia. Você me abraçava e eu implorava para noite não ter fim.

Seu exemplo está em todo lugar. Em mim, por inteiro. Tento ser mais calmo, mais alegre, viver com mais leveza, enfim. Assim como você fazia. Assim como tantas vezes você me sugeriu viver. Seus dias eram pluma, enquanto eu, cinza e pesado, trovejava o stress do trabalho e da rotina.  Então nos víamos, e você me inundava com sua simplicidade.

E tudo passava.

E sempre antes de ir embora desses mesmos lugares, dou mais uma pequena olhada para todos, numa esperança ínfima de você estar ali, na mesa ao lado, lendo seu livro favorito. Perdoe minha memória, mas qual era mesmo? Lembro do seu jeito entusiasmado de falar sobre as obras de Zusak e de Hosseini, mas sinceramente não lembro qual delas te fazia voar mais alto.

Em meus caminhos para casa, sinto de perto a sua falta. Ela faz silêncio todos os dias, e me faz viver essa irrealidade na qual perco o senso do que é memória e do que está de fato acontecendo. Preciso, de vez, entender que você não está mais aqui.

Afinal, essa foi a sua escolha.

Você resolveu ir. Era indomável, quem poderia te segurar? Você quis, e não houve ninguém que pudesse se por à sua frente. Essa sua personalidade foi o que sempre me chamou mais atenção em ti. Se você queria algo, simplesmente ia e fazia acontecer. Só é uma pena que as coisas tiveram de terminar dessa forma. Logo para ti, pequena rosa vermelha.

Você gostava de rosas, né? Trouxe essas para você. Quantos anos você faria hoje?

Já nem sei mais. Talvez seja melhor eu ir embora. Deixarei as rosas encostadas em sua lápide.





Até algum dia, quem sabe.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Ode à Moleira, Taís. (Farewell, my friend!)


Hoje eu dou adeus à minha irmãzinha. Ela vai pra bem longe, lá pra onde os sonhos viram realidade. Talvez eu nunca mais a veja.



Sinto-me dividido. Triste, por não ter mais por perto alguém tão incrível, tão brilhante, tão cheio de vida e de sonhos. Por não ter minha confidente, minha companheira, a menina que teimava em viver praticamente as mesmas coisas que eu. Contudo, jamais me senti tão alegre por vê-la assim: temerosa, porém radiante! 

Pronta para o que está por vir, levando a calma de sempre e a cautela de outrora. E já a imagino caminhando pelos campos verdes e pelas ruas magníficas de onde agora vai morar, e já me enciúmo com seu mais novo melhor amigo.

Oras, também tenho ciúmes, ué.

Mas sei que ela vai se dar bem. E sei que não vai parar por ali. Tão pequenina e com sonhos tão gigantes. E intensos. E mágicos. E emocionantes. Vai sim, vai se dar bem. Quando esse frio na barriga passar, você vai estar de boa, curtindo o novo ar que te rodeia e contemplando a nova vida que se apresenta bem à sua frente. E então, corra para ela! Você a construiu, você a merece!

(Desculpa, não vou conseguir conter o choro).

Eu vou sentir tua falta, pequena.  Não vou esconder isso de ninguém. Choro mesmo, sou meio fraco pra essas coisas de dar tchau a quem se gosta. ^^ Mas ó, você me conhece. Eu vou ficar bem, e torcendo cada vez mais por você. E mais, e mais... Sempre! A cumplicidade que criamos não vai se perder, nem essa minha vontade de querer cuidar de você, de te dar broncas, de te aconselhar, de ouvir seus conselhos, de rirmos juntos.

Como já sabe: precisando, estarei aqui! Basta gritar que eu tento te ajudar de alguma forma. Como nos tempos da facul, “é nóis”, sempreeee!

Agora vai lá e realize seus sonhos. Tô na primeira fila, pra ver tudo de perto e ser o primeiro a levantar pra aplaudir.

Por fim, citando a mim mesmo, amizade é um misto de doçura e loucura que, de fato, adoro sentir! =)



Tonight, the stars shine only to you.


Com todo o amor do mundo,

Alêénóis.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Ø


Os pedaços de papel no chão dessa cidade imunda ainda são pouco para que eu (d)escreva o que agora sinto. É como se nada conseguisse traduzir toda a lava que minha mente em erupção cospe. É possível ver a névoa na qual me encontro em toda minha angústia a quilômetros de distância.

Venho procurando maneiras de curar minhas asas que já não fazem nem minha imaginação voar. É como se precisasse renascer para trazer nova cor ao cinza dos meus olhos, por mais que seja apenas o reflexo desse céu que insiste em chorar e esfriar minhas já escassas tentativas de manter aquecida a esperança.

Enquanto isso, perambulo ladeira abaixo. Pessoas vêm e vão. Esbarram em mim — sou invisível. Mas nem me dou ao trabalho de me revoltar. Elas não vão voltar, nem se virar, nem se desculpar. Xingam baixinho e seguem, cegos.

Os pensamentos insistem em não levantar voo e, tentando êxito, tropeço. Caio. Estilhaço-me. Coração em mãos: não posso perder nenhum pedaço meu! Tateio as proximidades e recolho o que de mim não foi levado pelas lágrimas ácidas que caem das nuvens. Névoa à minha volta, por toda parte.  Não acho mais nada, e me perco.

Mas toda essa lamúria só será mais um pedaço de papel na rua. Mais um pensamento sem-teto para que cegos esbarrem, chutem, desapercebam. O vulcão já adormece, cansado de destruir o que me contorna, tornando temerosa minha presença. Irônico pensar nisso, quando me vejo indefeso e incapaz de machucar a mim mesmo. A não ser por palavras.

Ah, as palavras. Elas, só elas, me levam ao céu.



Cinza. Como os olhos. Como o dia. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Just forget the world




"As coisas aconteceram rápidas demais. Agora estou sem saber por onde ir, nem o que fazer. Devo ficar parado e esperar, ou devo correr o mais rápido que posso? Se correr, onde vou chegar? Se ficar, o que dizer?”

A pressão parecia dissipar todas as ideias racionais de Alexandre, que mais queria fugir que ficar. Ao mesmo tempo, sabia de seus deveres, suas responsabilidades. Era como se quisesse ir embora para lavar a alma, mas voltar para encarar a vida de frente. Buscava como louco uma solução para conciliar seus sonhos com sua realidade, mas já se via com poucas opções.

Observava sua cidade de longe, sentado numa pedra no topo de um pequeno monte. Gostava dali, pois era o lugar onde ninguém jamais pensava em procurá-lo. Sempre que ia lá, ficava sentado por horas, apenas clareando a mente e se encontrando consigo mesmo para colocar os sentimentos em dia.



A natureza do lugar também o fazia bem. A ideia de ver a cidade longe lhe trazia calma, pois se sentia fora daquele vaivém constante de pessoas irritadas em faróis, carros, metrôs, ônibus, calçadas. Não importava a idade ou ocupação: todos, sem exceção, corriam para não perder a hora, mas perdiam horas correndo da vida. Pensava ele que isso acontecia por medo de encará-la, de não saber vivê-la, ou mesmo de não suportá-la.

Mas Alexandre não era diferente. Por isso estava ali, tomando um ar para voltar à poluição.
“Talvez se eu escrever sobre isso, essa loucura passe um pouco...”

E assim ele usava a escrita: como mais uma de suas válvulas de escape, seu ponto alto. O papel se fazia de refúgio e também ali ele sentia que ninguém poderia encontrá-lo enquanto estivesse submerso em sua inspiração. Naquele dia, vomitou todas as palavras engasgadas em seu âmago. Escreveu até doer o pulso, e depois continuou escrevendo. Havia muito a ser falado e tão pouco já havia sido dito.

Mas rasgou o que escreveu depois.

Estava aliviado, era como se tivesse contado seus mais guardados segredos a alguém, com a certeza que esse alguém jamais falaria nada a ninguém. Pegou os pedaços de papel e os soltou ao ar. Dançaram monte abaixo, sem destino certo. O vento se encarregaria de levá-los onde quer que devessem chegar.

“Acho que é hora de eu descer também.”

Então, baniu de si o restante de sentimentos o que lhe importunava e jurou em todas as línguas que conhecia que acreditaria sempre em si mesmo. E aquilo deveria bastar.

“Precisa bastar. Não há outra opção”.

Levantou-se, encheu seus pulmões com o ar do alto daquele monte e iniciou sua jornada de volta. Sentia-se pronto, mais uma vez, para seguir em frente. Mas antes olhou pra trás, fez seu rotineiro gesto de agradecimento e seguiu.


Sabia que voltaria lá mais inúmeras vezes para recuperar o fôlego, mas não ligava. Naquele momento se sentia preparado e, de certo, já havia recuperado o que lá foi buscar:


A força necessária para poder continuar.