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sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Por fim, o (re)começo.


Cambaleando pelas ruas cinzas, ouvindo o vento uivar, Ana conseguia distinguir as gotas geladas do choro do céu juntando-se às lagrimas quentes e salgadas que pululavam de seus olhos claros, inundados em arrependimentos e angústias. 

- Como pude deixar isso acontecer? Quando foi que eu me perdi de mim mesma? Quando foi que me perdi de...

Os soluços pareciam competir com sua voz trêmula e a venciam a cada fim de frase. Cada passo promovia um tropeço nas tantas palavras jogadas ao chão, enquanto outras retornavam com o vento, num eco constante de lamúria e decepção.

Mas ela continuava caminhando.

Continuava tentando vencer a interminável luta contra seus sentimentos, contra seus instintos. Ela queria só voltar a ter a vida de sempre. a ter vida. Já não sabia por quanto mais tempo sustentaria o peso de sua consciência sem que sua sanidade ficasse no caminho. Por isso se esforçava, lutava, rugia, chorava.

Por fim, caía.

Mas Ana, porém, queria a todo custo levantar-se de novo, mesmo sem segurança, mesmo sem garantia de que a próxima queda seria a última. Queria tentar novamente, ainda que só mais uma vez. Queria provar ser dona de si mesma; provar que conseguia, sim, vencer seus tantos eus que guerreavam entre si. Pôs-se, então, de pé, e buscando ordenar os pensamentos, deu o primeiro passo para fora da névoa tempestuosa de seu estado emocional. 

A chuva parava aos poucos de cair. Suas lágrimas, por fim, secavam.

- Deixe como está. Preciso seguir. 

Mochila de volta às costas, passado para trás. Próxima parada, o nascer do Sol. Seja lá onde isso for.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Os dois lados da moeda

Sempre quis me tornar um herói. Servir o país, ser um soldado, lutar por minha pátria! Sempre quis mostrar meu valor, poder fazer com que as pessoas olhassem pra mim com orgulho, e não com o desprezo de sempre. Não ouviria mais insultos, não seria mais humilhado. Muito pelo contrário: seria, enfim, respeitado!

O estouro iminente de uma guerra era anunciado aos quatro ventos, todos estavam temerosos com os possíveis ataques aéreos, preocupados se suas vidinhas fúteis e sem sentido chegariam ao fim.

Por outro lado, eu estava extasiado! A carta de convocação havia chegado à minha casa, e embarcaríamos para o país inimigo na semana seguinte.

Festas, desejos de boa sorte, encorajamentos e muita ansiedade antecederam meu embarque. Chegava à minha caixa de correios dezenas de mensagens de apoio. Porém, uma das cartas me chamou muito a atenção. O papel continha apenas a seguinte frase:

O herói não é herói aos olhos do vilão.”
Não fazia sentido pra mim, mas ainda assim foi a única frase que lembrei entre tantas outras de todas as cartas que li.
Havia chegado a hora de partir. Muitos outros rapazes se juntaram a mim, e entramos no avião rumo ao nosso destino. Sentia-se no ar a morbidez e o medo exalando dos poros de cada um. Estaríamos mesmo prontos para abdicar de nossas vidas? A resposta já não tinha valor algum. Não era mais possível voltar.
Foi então que caiu a ficha.

Logo no primeiro dia, nas linhas de frente, senti na pele o verdadeiro medo e desespero. Não existia mais estratégia. Era uma luta árdua para se sair vivo, ainda que isso tomasse a vida de um aliado seu. Vi vários soldados sendo usados como escudo por outros que estavam exatamente ao seu lado. Todos perderam a noção de tudo; era visível que não estavam preparados para tudo aquilo.

A guerra havia começado para nós. Rajadas de tiros e explosões de granadas e canhões atordoavam-me; não se conseguia ver ou ouvir ninguém; era uma luta cega, onde luzes e estrondos davam ar de espetáculo ao inferno que ali presenciava.

Algo explodiu muito perto e fez muitos de nós cairmos, inclusive eu. Ouvia as balas passando muito perto, zunindo e batendo em coletes e capacetes. Gritos de dor era a sinfonia do momento. Tentei levantar, mas uma nova explosão me jogou alguns metros de distância de onde eu estava.

Era difícil ficar de pé. Reunindo minhas forças, levantei-me novamente. Ao meu redor, a guerra continuava. Bombas explodiam a todo o momento; testemunhava meus amigos lutando desesperadamente por suas vidas. Perto de mim, sangue jorrava para todos os lados. Estava atordoado, sem saber exatamente o que fazer ou o que pensar. Nunca passara por um momento tão terrível anteriormente.

Vivenciando aquilo tudo, senti o ódio subir em mim. A loucura passou a tomar conta de toda a minha consciência. Todo aquele caos havia me tirado a sanidade! Já não havia importância alguma em tentar se esconder ou se lançar ao ataque. Algo em mim já sabia que não haveria mais volta...

Então, segurando lágrimas e granadas, lancei-me às linhas inimigas. Correndo o mais rápido que podia, ouvia gritos e tiros. Um dos tiros, aliás, raspou meu braço, enquanto outro acertou minha perna. Caí imediatamente. Tomado pela dor e pela intensidade do que sentia, coloquei-me de pé com dificuldade e continuei minha trajetória.

Quando vi que já não havia mais como avançar, uma vez que me sentia muito cansado e a dor já me corroía o equilíbrio e o ímpeto, acionei as granadas e as joguei com toda a força que pude em direção aos que me faziam frente naquele momento. Eu já estava morrendo, mas ao menos um deles eu levaria comigo. Essa era minha obsessão.

Ainda consegui ver o estrago que fiz antes de sentir tantas outras rajadas de bala atingir meu corpo. Percebi ali que nada mais podia fazer.

Num último momento de lucidez, pensei na frase daquela carta que recebi. Ponderei se tinha sido realmente válido lutar por uma pátria que jamais lutou por mim. Tudo que tive na vida conquistei com dificuldade. Nunca me deram uma educação decente, um hospital de qualidade! Agora pediam para que eu guerreasse para trazer a paz à nossa pátria.

Engraçado, não?! Nós estávamos em paz. Os inimigos também. Mas de repente, quando se soube das riquezas que a terra invadida tinha, brotaram terroristas e malfeitores daquela nacionalidade.

Como pude ser tão burro? Estava na cara! Nosso governo dizia que deveríamos vencer porque os outros é que faziam o mal, que eram ruins. Esses, porém, é que tinham seu país invadido e estavam sendo expulsos de suas casas; tinham seus filhos mortos e mulheres estupradas. Quem era o mau, afinal? Por que estávamos ali, mesmo? Infelizmente, já não importava mais pra mim nem para todos os outros que ali estavam.

Quando a guerra começa, os propósitos primários são esquecidos e se luta unicamente por sua própria sobrevivência. Àqueles com sorte, a morte os espera. Aos menos afortunados, os fantasmas e lembranças daquele dia os perseguiriam até onde suas sanidades aguentassem, ou mesmo além.

Por fim, a luz. Mais uma explosão, menos um soldado.

E o que fica?

Para a família: uma medalha.
(medalhas não estancam dor)


Para o país: menos um pião no tabuleiro.
(“Perdemos muitos homens. Vamos refazer o planejamento”)


Para mim: a desilusão e a certeza de que heróis não existem.


(Acaba aqui a epopeia de um tolo que comprou mentiras acreditando adquirir verdades)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Depende dos olhos de quem vê

Certas pessoas simplesmente não nasceram para vencer.
Possuem quase tudo o que necessitam — falta coragem.
Quando o caminho se abre, tropeçam em si mesmas. Quando há uma pedra no meio da caminhada, então, afundam suas cabeças o mais fundo possível no chão, para se pouparem de ver a desgraça que pensam estar por vir.
Já é hora de acordar para a vida, para o mundo. Já é mais que hora de começarem a andar com seus próprios pés.

(Perdem-se constantemente em meio a problemas que eles mesmos criam)

Precisam buscar suas identidades, suas personalidades caídas e escondidas em algum lugar de seus odiosos âmagos.
Por quanto tempo mais ficarão dormindo e chorando em seus tão nauseados e inefáveis pesadelos?
Por quanto tempo ainda ficarão construindo esse muro de infinitas lamentações?
O mundo te convida a caminhar. E a vida, acredite, está cansando de te esperar.

A decisão é tão somente sua.
 ---//---
---//---
Lágrimas correm por minha face. A dor às vezes toma conta de mim, não tenho para onde ir, não sei mais o que fazer.
Por que tudo se volta contra mim a todo o momento que tento fazer da vida um lugar melhor para se viver?
Por que as cinzas do céu ofuscam tanto meu sol?
Por que essa cidade morta parece me puxar cada vez mais para seus bueiros?
Com minhas vontades e esperanças mortas, sinto que falta algo que me faça continuar.

(Perco-me no labirinto que minha vida se tornou)

A vida... Não segue.
O mundo... Não gira.
Inerte, findado... Caio. Já sem forças para levantar, inicio aqui meu fim.
E que a sorte, que foi lançada bem longe de onde me encontro, possa encontrar alguém cujos olhos não sejam como os meus, mais vazios que a nuvem que agora colhe meu suor e o devolve com sua chuva ácida.

A decisão já não cabe mais a mim.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Não é pedir demais

Olá, pessoal!
Aos que estão prestes a ler o texto abaixo, sugiro que o façam ouvindo a música a seguir, pois sem ela o texto não terá o impacto que procuro causar.


Enjoy!

--//--


E aqui estou, observando o luar. As nuvens passam devagar, escurecendo meu momento quando ofuscam as luzes da lua.

Tem sido tão difícil sem você aqui! Fico me torturando, tentando encontrar razões que me expliquem essa falta que você me faz.

Por que você teve que ir embora? Por que você não volta, não me traz de volta à vida?

Tudo parece tão sem graça sem tua presença. Não visito mais nossos lugares favoritos, não consigo mais sorrir quando a chuva cai. Afinal, que graça teria encharcar-me por completo se depois você não vai me esquentar? De que adianta ir aos parques que costumávamos ir, se eu irei perder meu tempo te procurando em cada rosto, em cada banco, em cada folha que as árvores deixam cair ao chão?

Fico pensando, pensando, pensando... Imagino o que você está fazendo, o que você tem feito, se está bem... se ainda pensa em mim. Como está levando essa situação? Será que também não está comendo, nem dormindo, nem sorrindo... Será que seus motivos, suas razões, suas desculpas te saciam a alma? São elas o bastante para te sustentar assim, tão só? Será possível que você não sinta falta do meu cheiro, da minha voz, dos meus braços te envolvendo, ou será mesmo que só eu me sinto assim? 

Será que um simples luar também te faz chorar? Também está chorando agora? Não me deixe aqui só com minha saudade, porque eu juro que não sei por quanto tempo ainda vou aguentar!!!

...

Hoje, eu demorarei pra dormir.

Mais uma vez, dormirei sem você.

Mas, sabe de uma coisa? Antes de dormir, ainda te desejo uma boa noite. Sempre.

Boa noite, meu amor.

Boa... noite.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Do ponto de vista de olhos cansados

Gotas de chuva ácida caem como chumbo de um céu cinza-aço e corroem o asfalto gasto das ruas opacas da cidade sem cor.

Carros são prata, brancos, pretos, lata. Pessoas frias e sem sorriso, com pressa, sem educação, agressivas, covardes, inúteis, inertes.

A vida é sem graça, sem rumo, ritmada por necessidades esdrúxulas e pela compulsão de comer lixo tóxico no almoço e guardar um pouco pro jantar, acompanhado de gosmas borbulhantes e um pouco de mato verdejante.

Vermes são sempre um ótimo aperitivo para as pessoas-zumbis que moram em suas casas ocas, trabalham como escravos em missões Kamikaze e vivem rindo da desgraça alheia por puro medo de se olhar no espelho e morrer do coração por causa do reflexo moribundo que seria revelado. Vomitam uns nos outros sem pestanejar todas as divagações que puderem inventar apenas para conseguirem um pouco de glória. Nadam na lama seca e descansam sob a sombra de um muro de lamentações que estão incessantemente construindo. Amontoam-se entre si todas as manhãs e noites num espaço ridiculamente pequeno, numa mistura de auras podres que se junta ao suave odor fétido do rio vistoso que corta a cidade.

Acham no sábado motivos pra gargalhar com zorras de total ignorância e choram no domingo porque a vida vagabunda só pode durar dois dias na semana. Alguns deles estendem para mais de dois dias, orgulhosos de estarem com dor de cabeça e se achando espertalhões por terem dado calote no serviço.

Gostam de vestir roupas desbotadas e torrar no sol forte. Quando se juntam, conseguem fazer valer sua palavra a tal ponto que até conseguiram colocar um palhaço no Palácio, para que ele possa representá-los exatamente da maneira que são enquanto ganha seus 26 mil reais, valor que seus benfeitores jamais verão nesta vida em tão curto espaço de tempo.

Plantam árvores de concreto que crescem em alturas absurdas, onde pássaros imundos cor-de-nada fazem seus ninhos com fios de cabelo seco e pintado que caem sem parar das cabeças das donzelas cadelas sempre preocupadas com seu mundo moído e miúdo.

Seus sorrisos são de plástico, tão descartáveis quanto suas personalidades, suas opiniões. Seus sonhos — o que é isso mesmo?

Da torneira sai lodo, do chuveiro não sai nada. Mas pra que água? Bom mesmo é ligar a TV e ver mulher pelada.

Mas as pessoas-zumbi, residentes das casas ocas na rua sem cor de uma cidade sem vida, estão felizes: está chegando o carnaval (só pra encerrar jogando uma pá de cal).

terça-feira, 15 de março de 2011

O Passeio de Sarah

Em um campo aberto, Sarah corria alegremente; seus cabelos dourados balançavam desordenadamente, parecendo acompanhar o passo de seu vestido turquesa; ainda não acreditava que tinha chegado a Bloomsfields a tempo de sentir o calor do sol da primavera e o perfume das rosas a desabrocharem. “Um verdadeiro paraíso!” dizia para si mesma a todo o momento.

Realmente havia algo de paradisíaco naquele lugar: um parque que mais parecia um jardim imenso, com a grama muito bem aparada e flores das mais diversas cores. Havia também árvores grandes e pequenas — sendo algumas frutíferas —, que formavam uma fila perfeita; escondido atrás delas, um riacho de águas calmas e cristalinas fazia um barulho suave. Os olhos de Sarah brilhavam e sua vontade era de que o tempo simplesmente não passasse, ou que não precisasse voltar pra casa tão cedo, ou que, se possível, seus pais se mudassem para Bloomsfields para sempre!

Perdida em meio ao grandioso jardim, ela encontrou um local propício para cear e sentou-se na relva. Banqueteou na presença de esquilos, à sombra de uma árvore alta cujo fruto era doce e macio. Após comer, encostou-se no tronco da árvore e se permitiu relaxar por uns instantes. Com o clima propício e a calmaria ao seu redor, dormiu.

De repente, ouviu um barulho estranho. Assustada, Sarah esfregou os olhos e tentou identificar de onde o som vinha. Percebeu que já era noite e temeu pelo caminho escuro que deveria fazer para voltar ao local onde seus pais estavam. Ouviu outro barulho muito próximo a ela. Tentou ficar de pé, mas, de súbito, o chão começou a tremer, fazendo-a cair imediatamente. Desesperada, pôs-se de pé da maneira que pôde e tentou correr para algum lugar seguro, mas o que viu em seguida a fez ficar estagnada: o chão estava se partindo em dois, e um imensurável penhasco se formava à sua frente, afastando-a do seu caminho de casa! Sem acreditar no que estava acontecendo, permaneceu ali parada, pensando em alguma maneira de contornar a situação.

Ouviu-se, então, uma explosão. Vinda da fenda, uma enorme cortina de lavas se levantou, resultando numa chuva flamejante que começava a incendiar as árvores do local que antes era um lindo jardim. Neste momento, Sarah se lembrou das histórias que ouvira sobre Bloomsfields ter sido construída no pé de um vulcão há muito tempo adormecido e tido pelos moradores da região como inativo para sempre.

Agora percebia que todos estavam completamente enganados no quesito inatividade.

Já não havia como voltar. Num misto de maravilha e terror, via as gotas luminosas cortarem o céu num espetáculo sem igual, queimando tudo o que tocavam. Sem ver outra saída, Sarah correu em direção ao riacho o mais rápido que pôde para não ser queimada pela atípica chuva, atirando-se nele e batendo pernas e braços assim que caiu na água.

Mas esqueceu-se que não sabia nadar.

Seus braços e pernas cansaram, e viu-se em completo desespero ao tentar se manter na superfície. Havia se afastado da margem graças ao esforço inicial que realizou e agora estava exatamente no meio do córrego. Com todo o ar que ainda tinha nos pulmões, gritou o mais alto que conseguiu para pedir socorro. Não houve resposta. Então, segurou o ar restante, à medida que via seu corpo afundar mais e mais nas águas fundas daquilo que outrora lhe havia causado uma grande sensação de paz e tranquilidade.

Vendo que não podia mais aguentar, Sarah cedeu. Soltou o ar e começou a engasgar incessantemente com a água que agora lhe enchia os pulmões. Em um último instante, pensou em como aquilo tudo pôde acontecer em um dia que tinha tudo para ser belo, único, lindo. Chorando muito, começou a tossir, tossir, tossir...

Acordou, aos prantos, engasgada com a saliva. Olhou em volta e viu que ainda estava embaixo da árvore perto do riacho e que o sol começava a se por. Limpou o rosto rapidamente e saiu correndo para o local em que seus pais, àquela altura, a esperavam preocupados, já que a garota havia saído para passear já fazia algum tempo.

Sarah jamais foi vista em Bloomsfields novamente e nunca mais ousou visitar uma região vulcânica.


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Blindness

...E tudo que ele queria era parar de pensar nela, porém seus esforços pareciam ser em vão... todas as tentativas bobas de se distrair com um programa na tv, com uma musica do rádio, nada adiantava - tudo lembrava ela.
E também, como esquecer aqueles cabelos dourados, bochechas rosadas e olhos tão profundos, fascinantes e misteriosos quanto uma nebulosa de uma galáxia distante! O corpo frágil, o jeito único de ser onde misturavam-se sensualidade, inocência, segurança e alegria... "Como ela é linda! E como eu estou longe de um dia poder tê-la em meus braços..."
Uma Deusa, era como ele a via: um ídolo do qual idolatrava, alguém completamente intangível.
Era inexplicável sua felicidade ao vê-la, e como ficava sem palavras a todo momento que passava a seu lado, do qual só conseguia sorrir e ficar ali, contemplando sua beleza e seu brilho fantástico, e toda vez que ela o olhava nos olhos, o frio inevitável na barriga percorria todo o seu corpo fazendo-o tremer, gaguejar, paralizado em frente àquela que seria pra sempre sua Afrodite, mesmo que ela nunca viesse a saber disso.
Mas quando ela foi embora, finalmente se viu na melancolia de viver um amor sozinho... havia-se privado de viver e de sentir o que um dia sentira por aquela pessoa que agora lhe acenava um "adeus".
No entanto ele preferia assim, dessa maneira ninguém nunca tomaria o lugar de sua tão exuberante amada.
Mas então veio o desespero.
Via-se sem chão, nada mais fazia sentido, não encontrava motivos pra continuar ali, vivo, de pé, inerte, apenas ocupando espaço...
Seus pensamentos já não eram dos melhores, o raciocínio era fraco, encontrava-se de vez em quando em meio a seus sentimentos confusos, e percebia que tudo a sua volta eram agora simples detalhes, dos quais já não se importava mais.
Quase optou pela saída de emergência, mas covardemente não cortou a veia principal, e optou por deixar as gotas de sangue caírem suavemente enquanto as sentiam percorrer todo o caminho em seu corpo, até finalmente tocarem o chão.
No fim de sua sanidade seu amor doentio não o deixou morrer, fazendo de si mesmo um mero fantoche para suas brincadeiras de machucar um coração apodrecido.
Mais um retrato horrível de uma pessoa que deixou a possessão tomar as rédeas rumo à insanidade.
Por todo o sempre, a esperou.
Ela nunca mais voltou.
Ele jamais foi o mesmo.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Cicatrizes

Olá galera!

Não iria postar esse texto, mas muita gente pediu pra eu colocá-lo aqui. Então lá vai!

Se gostar, pode comentar^^

Ale.

---//---

As marcas ficaram em minha pele.
Lembranças registradas pela dor e pelo rancor.
Cicatrizes, chagas que fazem meu ódio explodir em lágrimas de sangue a todo momento que as encaro.

Aconteceu quando eu menos esperava. Havia algo de estranho no ar. Ouvi um pedido de socorro fazendo eco por entre os sons do pesado cotidiano metropolitano. Fui saber o que acontecia, afinal poderia ajudar.

Mas foi eu quem precisou ser ajudado.

Enquanto seguia o som da voz, senti repentinamente uma forte pancada em minhas costas.
Caí.
Me arrastaram para um carro e começaram a colocar em prática o plano já arquitetado há tempos: eu estava sendo sequestrado.
Nervoso demais, não conseguia colocar as ideias no lugar. Quando tentaram pegar meu dinheiro, cartões etc. eu reagi. Mas não conseguiria bater em quatro pessoas, e acabei apanhando feio. Após conseguirem minha carteira, desovaram-me - com o carro ainda em movimento - próximo a uma favela. Caí e rolei por vários metros no chão. Nesse momento, consegui minha cicatriz graças aos cacos de vidro que se encontravam ao chão.

Foram embora com meus objetos de valor.
Mas não foram tão espertos assim.
O plano não era perfeito.
Eu sabia quem eles eram.
Grande erro não estudar a vítima antes de executar o plano.

Comecei minha caçada. Um a um, busquei-os. Um a um, caíam aos meus joelhos, implorando misericórdia.
Obviamente, não obtiveram a resposta desejada.
Antes de abater a caça, apresentava minha cicatriz.
- Isto aqui foi culpa sua. Vim agradecer.
A melhor parte era olhar nos olhos deles e enxergar a última chama de esperança se extinguir e o brilho simplesmente se perder por entre as lágrimas de arrependimento e desespero tardios.

Um dia, sei que vou revê-los.
Um dia, o lugar onde agora estão abrirá as portas pra mim.
Quando isso acontecer, meu jogo continuará.
As cicatrizes são para sempre.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

(in)sanidade

Ela está morrendo.
Não consegue mais fugir de tudo aquilo que a leva à insanidade.
Triste, vazio, como definir o que seus olhos passam?
Remédios já não são fortes o bastante, os cortes já são fundos demais.
Caída, suas forças somem ao tentar rastejar-se até a saída mais próxima.
Tudo começa a girar, então pela primeira vez, sente estar morrendo de verdade.
Seus sentidos ficam falhos. Não consegue ouvir nem enxergar direito... Nem mais sente a dor dos cortes...
Sente uma paz passageira.
Apenas passageira.
A dor volta.
Seu estômago dói muito; ela se contorce e tenta gritar, enquanto sua pele vai perdendo a cor, ao mesmo tempo em que se mistura ao vermelho de seu sangue, que ainda brota de suas tentativas sem sucesso de aliviar o peso do mundo dando vazão àquilo que lhe dá a vida.
Arrepende-se.
Tarde demais.
Não há ninguém em casa, não há ninguém por perto.
Sente frio, sente medo, quer mais do que tudo voltar no tempo, quer tentar de novo, quer uma nova chance.
A dor já é insuportável.
Então chora como uma criança, desesperadamente.
E nada mais sobra.
Apenas carne.
Um corpo sem vida.
Uma vida de dor.
A dor da escolha.
A escolha do caminho.
O caminho sem volta.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Entrelinhas

Apresse-se, seu gosto não ficará em mim por muito tempo...
Nem sempre aquilo que quer é aquilo que vai ter.
E sabe por que?
Porque a injustiça mora em você, e sendo assim, nada mais justo que o injusto a ti.
Nada mais certo que a incerteza. Nada mais excitante que o tédio.
Você está morto em vida, como não pode ver?
Quantas vezes tentou se enganar ao ver o reflexo no espelho entregando um alguém que luta arduamente pra se manter de pé?
Por que insiste em continuar?
Qual sua meta? Até onde quer chegar? Será que vale todo esse esforço?
Fique em sua poltrona confortável vendo a vida passar e esperando a morte chegar, já dizia um sábio cantor.
A vida é muito mais que esse quarto cinza no qual você se encontra toda vez que se perde e se prende em si.
Enjaulado em seus pensamentos, não vê como o azul desse céu é tão diferente de qualquer outro, não enxerga a imensidão de todo o momento que poderia estar vivendo, em um lugar em que o Sol brilha soberano, e esquilos correm por todos os lados de forma desorganizada e natural.
Apresse-se, seu tempo está pra acabar. Logo logo, não fará mais parte daqui.
Já não verá as árvores laranja-vermelho-marrom-outono, muito menos o branco-inverno que te arrepia quando você o toca, o vê, o sente.
Há muito mais numa nuvem que em seus olhos vazios.
Seu tempo está acabando, o que vai fazer?
Vai ficar aí parado enquanto a vida passa por você,ou começará a agir se fazendo presente aos momentos que clamam serem vividos como se fossem únicos?
Em algum lugar em ti, tens a certeza de que realmente seriam únicos os momentos ali vividos, e que nada levaria de lá além das lembranças.
Mas do que você consegue se lembrar agora? O que sente ao ver que muito se foi e pouco se guardou?
Quantos muros ainda consegue derrubar sem que pra isso tenha que parar em frente a cada um deles e derramar litros e litros de angústia e desespero?
Por que faz de tudo, algo assim tão complicado?
Perguntas, perguntas, perguntas..
Por que você não olha pra si mesmo e vê esse tão conturbado estado de espírito desvanecer aos poucos, juntamente com seu brilho e sua fraca percepção do que é vida?


Quer saber?

Cale-se.


Ninguém mais vai me dizer o que sentir.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

(des)encontros

“Ah, a vida!”.
Encostada em uma árvore num campo meio aberto, uma pequena garota de cabelos loiros a deslizarem sobre seus ombros, como numa dança ao som do mais belo riso dos ventos, estava a pensar. Seu rosto tinha uma expressão nostálgica, e seus olhos azuis brilhavam em vermelho, da cor do céu de mais um pôr-do-sol.
Ali, a imaginar o dia mais feliz de sua vida, o dia em que sonhava poder finalmente abraçar a quem a esperava, e então nos braços dele poder dizer tudo o que sentia, o quanto rezou para aquele dia chegar, o quanto queria que aquele momento fosse eterno. Fazia planos, inventava mil maneiras diferentes de surpreendê-lo quando o dia chegasse. Queria enfim, parar de apenas sonhar com momentos como aquele e vivê-los um por um, em todos os detalhes.
Mas não podia mais. A vida lhe tinha sido má, e não cansava de lhe pregar peças. Agora só teria consigo as lembranças de algo que nunca aconteceu. Não mais teria a chance prometida, não mais conseguiria cumprir suas promessas e juras apaixonadas. A idéia do “pra sempre” então havia acabado.
Como esquecer as palavras doces e singelas? Como enterrar um sentimento que lhe fazia arder por dentro, que a fazia sentir-se diferente, única?
Como aceitar a idéia terrível do fim?
Quando recebeu a derradeira notícia: “Ele já não está mais entre nós”, não conseguiu se mover por uns instantes. Atônita, pegou todas as cartas recebidas, todos os presentes e fotos, e saiu pela porta de sua casa, sem nem mesmo saber para onde ir.
Caminhou por horas e horas, quando no fim da tarde encontrou este bosque de beleza inimaginável no qual se encontrava desde sabe-se lá quanto tempo. A brisa acariciava seu rosto triste. As folhas caíam ao chão para lhe fazer companhia em meio a flores que se prestavam a consolar a pequena menina, de cabelos agora alaranjados graças ao Sol que descia para dar lugar à noite. Sentou-se próximo a uma grande árvore. Via o rosto dele em todas as nuvens que olhava.
E então chorou. Gritou, levantou-se e correu. Depois de um tempo, cansada, deixou-se cair por entre as flores. Suas lágrimas quentes percorriam seu rosto. O céu, companheiro, chorou juntamente com ela. A chuva se misturava com suas lágrimas, e então chorou mais e mais. Não entendia por que aquilo estava acontecendo com ela, por que estava sendo privada daquela felicidade, e o que enfim ela faria dali para frente.
A chuva aumentou.
A tristeza e a dor se juntaram, viraram ódio.
Agora, suas mãos sujas de barro arrancavam as flores que estavam ao seu lado com ferocidade. Gritava, urrava que nada mais merecia a vida, nada mais merecia ficar de pé. Desesperada e apavorada, via raios e trovões cortarem o céu profundamente e caírem por algum lugar próximo. De seus braços, o sangue brotava, graças aos espinhos das flores que ela continuava a arrancar.
Sua face agora era de uma expressão amarga, insana. Era capaz de qualquer coisa naquele momento, havia deixado seus pensamentos e sentimentos destruidores tomarem conta. Já não sentia dor, tristeza, medo.
Gritou com a alma o mais alto que pôde tudo o que já havia pensado em fazer antes. Tateando seu bolso, sabia de algum modo que aquele objeto que havia levado com ela lhe serviria para algo.
Já não chorava mais.
Com um sorriso estranho no rosto, pegou o que sobrou de si e caminhou. Andou até aquela mesma árvore onde havia assistido ao crepúsculo. Ela estava em chamas! Um dos raios a havia acertado.
Seus olhos brilharam novamente.
“Já estou indo, meu amor”.
Foi quando cravou seu destino em seu coração. Num último instante, pôs-se a pensar, e pensar, e imaginar.
E sorriu seu último sorriso.
E derramou sua ultima lágrima.
E caiu ao chão sua última gota de sangue.
Rosas vivas, banhadas num tom vermelho-escarlate.
Um funeral perfeito.



Ah, a vida.