quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Ele sempre coloca selos demais

E aí rapaz, beleza?

Eu sei que cartas já são algo um tanto fora de moda, mas foi a única forma que encontrei pra te contar o que vou falar agora. E-mail é rápido demais, você poderia responder na hora, e telefone nem pensar. Pelo menos eu sei que estarei longe quando estiver lendo isso.
Você deve estar se perguntando por que eu saí sem falar nada, assim, da noite pro dia. Mas já te falo, é mais difícil do que você pensa! Esse ambiente todo tava me sufocando, e eu já tava me desesperando! Os anos estão passando e minhas chances pareciam diminuir! Se eu não seguisse meu coração agora, quando o faria? Aos 70, 80? Eu estou ficando velho, mano. Você não sabe como é sentir que sua vida tá passando e que tudo já tá chegando na época dos “tarde demais”. Não quero que seja tarde demais para fazer nada. Não quero me prender e depois me arrepender! Entende?

Você deve estar pensando em como vai pagar as coisas aí, afinal eu dividia as despesas do apartamento. Seguinte: hoje eu depositei uma grana pra cobrir esse mês e o próximo. A partir daí é certeza que você já arranjou as coisas por aí. Sabe quem tava procurando um quarto pra alugar? O Luís! Tenta falar com ele, porque ele tava afim de morar mais perto da facul sem gastar muito, e ele é gente boa, você sabe. Duvido que ele não vai aceitar.

Sei que você vai ficar (já deve estar) todo preocupado comigo, principalmente depois que ler o endereço de onde estou mandando esta carta. Mas fica calmo, eu tô tranquilo e já tô trabalhando em uma lanchonete aqui. Sei que não é aqueeeele emprego que pedi a Deus, mas é o que me sustenta até eu arranjar dinheiro pra sair por aí de novo. Sabe como é né?! Eu canso rápido das coisas.

Comecei a estudar por aqui também. É uma escola de idiomas, só que grátis, e só tem estrangeiros também. É bem legal! Sou o único brasileiro lá, e tem gente da França, África do sul e uma australiana que é melhor nem imaginar... hahaha! Uma deusa grega, só que da Austrália! Hahaha... Vou ver se puxo uma ideia com ela de ir tomar uma breja ou qualquer coisa assim... vai que ela cai na minha?! 

A casa que eu tô... não é bem uma casa. É tipo um quartinho com banheiro e uma mini-cozinha, mas tô na paz. Tem uma vista bem legal da janela, é um parque muito bonito com um lago bem no meio. O sol da tarde bate bem na minha cama, e como aqui é verão e escurece só às 22h, fica difícil dormir. Preciso comprar uma cortina, porque o lençol é muito fino e não tapa sol nenhum.

Disseram que em dezembro fica bem frio e com bastante neve por aqui. Vai ser a primeira vez que verei neve! Mas antes vou ficar esperando um monte de folha alaranjada no chão, tipico do outono. O parque daqui da frente vai ficar incrível! Só por precaução, já comprei uns casaquinhos baratos . É muito barato as coisas aqui! Se eu voltar, te levo umas lembrancinhas!
Se eu voltar. Voltar. Nossa, doeu um pouco pensar nisso. Sei lá, talvez seja um pouquinho de insegurança de ter deixado tanta coisa pra trás... Bom, eu que escolhi vir pra cá, né? Então bola pra frente!

Bom, é isso, cara. Não fica bravo comigo, mesmo porque eu acho que você já sabia que eu estava indo embora. Você sempre sacou o que acontecia comigo. Sempre deu conselhos ótimos, sempre soube o que dizer, sempre foi maduro e equilibrado, e talvez seja por isso que eu estou te dando satisfações, entendeu?! Porque eu sei que você vai me entender. Só você me entende às vezes, e olha que nem eu me entendo bem! Hahaha

Fica na paz, amigo.
 
É nóis,
Henrique.


PS: como sempre, enchi a carta de selos porque eu nunca sei quantos precisam pra que isso chegue no destinatário. Desculpa aí.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Celui qui croit toujours en lui


Today, the sun is shining brighter. Birds are singing more loudly, and I feel like I’m dancing their song. My backpack is full of courage and wishes. I’m one step away to the City of Light! There’s no stopping me from now on. But before closing the door in my back, I take a time to think about the past, and I see that everything I’ve been through weren’t that bad at all. The times when I had to find strength on myself, in moments where I thought I couldn’t go any further, made me grow in so many ways that I couldn’t be more thankful. All those situations where I fell down just made me learn how to get up faster and faster!

I know that when I close this door, there will be nothing left but memories. But I’m feeling great! So there’s no regret to say goodbye to the past and start my brand new life, being aware that everything is going to change: the people around me, the way to live, the way I see life as a whole. Time to spread my wings!

So I close the door and start walking. Looking at every street, enjoying every step, hoping for the best, while going to the airport. Farewell, my humble place! My name is being called, and it’s time to go. Maybe someday I come back. And if I do, it’ll be my time to shine for the sun.

I’m reaching my dream, and it makes me feel like I can shine brighter than anything.

Let the new cycle begin.
=D 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Wish upon a star


You know, I wish I could have so many stars to look everyday here. And I imagine myself looking at them, amazed, and waiting for the next falling star to come. I wish one of them could fall on my yard, so that I would have one my own, to shine and to be admired every day. But it would be selfishness, so maybe I would throw it on the sky again, so that everyone could see such beauty. I've already made so many wishes upon a star, and some of them have already come true. I keep wishing. I keep looking to the sky. I keep searching for the next falling star to fall right here. I will have more wishes coming true. Maybe someday I can step outside your yard, and grab another chair to stay aside you. We could talk, laugh, philosophize and watch the universe in VIP seats.

But this is another wish.

I wish I could have so many stars to look everyday here.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

From up here

From the mountain of my dreams, I am pushed, like a stone. While rolling to the ground, I feel little parts of myself being left behind. It’s hard to look back and see that so much was lost. But I keep rolling without control. I can’t help it.

In the middle of the mountain, I got stuck. Can’t keep going down, neither can go back up. The sun is pointing his beams to me, burning my face as if it wanted to change my color, to change the way I am. Some clouds come to try to stop the sun, but his beams are strong and pass through them. It’s hurting me already. I don’t like to be changed, specially like this, with no option at all. Suddenly, I felt another push, freeing myself from being stuck, but not saving me at all. All this pushing was to take me down, and down, and down…

I had no one to hold, nowhere to hide. It was a free fall. Free of guilty, maybe. Because I was trying to stop it all. I was trying to get up and walk to the top again. But they were saying no; they were saying I should stop dreaming, that all of it wasn’t real life. However, I didn’t want to give up. If they couldn’t climb up to their objectives, it didn’t mean I could not do it as well. 

So I finally touched the ground. People are always taking me down. But doesn’t matter, I’ll climb it up again. I’m getting stronger, and the day will come when I’ll be strong enough to be able to avoid their pushes, and maybe pull one or another with me to see the life from the top of that mountain with the eyes I’ve learned to see.  


And if I may say, the world seems more pleasant and wonderful from up here.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Just a jealous guy (?)

Em uma de minhas caminhadas, lembro-me de ter encontrado um rapaz jovem, com um violão na mão e uma barba de respeito, apesar da pouca idade. Estávamos em um pequeno bar, e o vi tocando “Jealous Guy” no palco. Como eu gosto da música, fiquei prestando atenção enquanto ele tocava. Entre um gole e outro, reparei que suas feições mudavam a cada troca de notas. Ele realmente tinha uma sincronia interior com a música que tocava... Era fascinante!

Convidei-o para beber comigo. Ele então começou a contar um pouco da sua história. Disse que não tinha casa certa, e que muitas vezes dormia ao luar. Perguntei-lhe como ele conseguia sobreviver daquela maneira, e a resposta não poderia ser mais esclarecedora:

“Cara, esse negócio de sobreviver é muito relativo daquilo que você espera da vida. É tão simples e fácil ser feliz que às vezes fico rindo à toa daquela galera que insiste em se matar porque não passou na faculdade ou porque tomou um pé na bunda de alguém. Uns tantos ficam doidos buscando dinheiro, enquanto outros enlouquecem por ter grana demais. Agora me fala uma coisa: isso é felicidade? Seu objetivo também é se enjaular nesse tipo de vida tão manjada? Porque, fala sério, pra mim é muito pouco acordar, trabalhar o dia todo, voltar pra casa, dormir, e fazer o mesmo no dia seguinte, e no outro, e no outro...

Prefiro o mundão como minha casa, e não ligo se haverá teto hoje ou não. Olha só o céu, ó que estrelas lindas? Pra que um teto? Pra me privar de ver isso tudo aí? Não, não... Prefiro do meu jeito. Conheço gente nova todo dia, toco minha música, e de quebra ainda ganho uma graninha com isso. Não é muito, mas dá pra sustentar meus vícios e pagar a comida. Pode ser pouco pra você, mas pra mim é o bastante.”
Aquilo me atingiu como um tiro. Por um tempo, viajei naquelas palavras. Percebendo minha distância, o rapaz agradeceu o drinque e voltou a tocar seu violão:

I didn’t mean to hurt you.
I’m sorry that I made you cry.
I didn’t want to hurt you,
I’m just a jealous guy...


Just a jealous guy. Ele... ou eu?
--//--

Sentado ali perto, estava outro senhor, bem vestido e de boa aparência, que ouviu a toda a conversa que tive com o rapaz músico. Deu um último gole em sua bebida e virou-se para mim, dizendo em bom tom:

“Escuta, esse cara é doido! Você ouviu as merdas que ele falou?”. E continuou:
“O que você acha de tudo isso? Até parece que ele consegue viver uma vida sozinho, sem sonhos, sem destino, sem almejar chegar a lugar algum! O que é que nos move, senão nossos objetivos, nossa vontade de ir sempre mais longe? O que é que nos dá mais prazer que chegar em casa e encontrar as pessoas que você escolheu para viver ao seu lado? Que tipo de segurança você tem vivendo uma vida dessas? Que tipo de laços você faz? E o mais importante: de que serve viver todas essas experiências sem ninguém ao seu lado para compartilhar dos melhores momentos? Se o objetivo é ter história, de que serve se nunca haverá a quem conta-las? A vida não se resume a apenas subsistir.”

NOCAUTE! Lá estava eu no chão outra vez, me afogando naquele monte de pensamentos e opiniões divergentes. Os dois tinham seu ponto de vista e estavam certos de acordo com aquilo que acreditavam. Saí do bar pouco tempo depois, pensando se poderia – ou deveria – me encaixar em algum daqueles estilos de vida. Me vi sem saber se queria ser como o rapaz do violão ou como o homem refinado da taça de vinho.
Nesse meio tempo, melhor continuar com meu jeito, sei lá, todo assim, meio indescritível. É o que faz meus olhos brilharem por enquanto. Mas, definitivamente, coloco agora no papel o modo de vida daqueles homens justamente por não conseguir entende-los bem. Quem sabe, quando ler isso aqui novamente, eu possa compreender melhor o por que de eles serem tão diferentes e igualmente tão fascinantes.