De todas as coisas que a vida oferece, eu só queria viver.
Sem a necessidade de me prender a lugares, sem ter a rotina
como minha prisão.
Gostaria de ver diferentes nasceres do Sol. Voltar a
caminhar, nadar, voar. Ter a necessidade da simplicidade apenas, sem precisar
me comparar a ninguém nem querer ou invejar a vida dos outros. Apenas viver a
minha, assim, do meu jeito.
Sem carros do ano, mansões ou palácios. Valorizar o que
realmente tem valor. Gastar o tempo, nosso maior tesouro, em momentos
inesquecíveis. Afinal, o tempo é o único item que, se usar errado, não tem mais
volta.
Queria me desvencilhar desse ouro de tolo. Encher meu bolso
de sorriso e alegria, só.
(Em que momento me perdi dos meus ideais? Quando decidi me
acomodar?)
Sigo correndo. Ele não pode me alcançar! Se isso acontecer
será meu fim!
Entre arbustos e pedregulhos, vou me esquivando matagal
adentro. Preciso me esconder a qualquer custo, fazer o mínimo de barulho
possível.
Ouço o barulho das correntes. Meu corpo paralisa, não
consigo fazer nada! Vamos, pernas, pro meio do mato, pro meio do mato!
Consigo enfim me mover e me deixo cair por sobre o mato.
Está escuro, quem sabe ele não me acha aqui... E esses insetos, saiam daqui,
minhocas e formigas irritantes! Não posso fazer barulho, parem de subir em mim!
Estou suando frio... por favor corpo, não comece a tremer...
os sons estão chegando mais perto... Chore quieto, chore quieto!
Os passos, estão vindo em minha direção! O que eu faço? O
que eu faço? Por que não tem ninguém aqui? Cadê os outros?
Que barulho foi esse? Algo caiu no chão. Ele desviou a
atenção... Isso, ande para lá, vai pra longe! Me deixa em paz!
Será que já tá longe? A hora é agora, preciso fugir antes que...
O que é isso no meu pé?
Solta bicho chato, uma cobra aqui do nada, por favor sai sai
SAI! Ah não, oo o o o barulhlh-lho... E-el-e-e me o-ouvvviu?
- Ah não.. Não! Eu tava tão perto! Sai daqui! O QUE FOI QUE
EU TE FIZ?
- ...
Por que tá tudo rodando ao meu redor? Assim eu vou cair...
Que isso... é SANGUE? Da minha cabeça???????
Não to conseguindo mais levantar... mas pelo menos tá me
dando uma calma! Acho que vou ficar por aqui mesmo... To um pouco cansado... Acho..
Que vou dorm... Dormir um pouc-
Tudo começa quando vocês colocam alguém no meu caminho.
Sempre de maneira inusitada, sempre de forma surpreendente.
Conversamos, e em dois dias parece que já as conheço faz
anos. E --- veja só ---, numa desditosa coincidência, todas estão passando por
momentos delicados e cruciais naquela época de suas vidas.
Momentos esses que não consigo simplesmente deixar para lá.
São angústias lancinantes, dores agudas, que são sempre desdenhadas por aqueles
que poderiam oferecer um ombro amigo. Dizem ser frescura, coisa boba, exagero,
babaquice.
Essas mesmas pessoas que desdenham esquecem que elas mesmas passam
ou já passaram por dores iguais, em situações diferentes. Não se lembram que a
montanha russa da vida pode colocá-los também naquela posição de dificuldade, no
qual só quem passa por ele consegue entender o peso e a veracidade dos
sentimentos que vive.
Então, me sinto no dever de ajudar. Tudo o que puder fazer,
farei. Dentro dos meus limites, vou agir.
É como se alguém muito querido estivesse com um problemão.
Não importa se conheço há um dia ou 10 anos.
Então, a ajuda ocorre. A situação passa.
Aquela tempestade cessa, a maré baixa.
Tudo, enfim, fica bem.
O ciclo se encerra.
É como se a missão tivesse sido concluída. E, como consequência,
a pessoa aos poucos prossegue sua vida, sem a barreira que a impedia de seguir.
De onde permaneço, vejo-a se distanciando mais e mais, até que sua silhueta se
confunda com o horizonte.
E não tem nada de ruim nisso. Muito pelo contrário.
É fantástico ver alguém que aprendi a amar caminhando de
forma livre, segura, independente. Construindo seu próprio caminho.
Vencendo.
Sorrindo.
Fico em meu lugar, esperando a próxima missão que vocês vão
me dar. A saudade existe, mas é abafada pela alegria de ser útil.
(Dói um pouco, sim. Não gosto de despedidas, mas não há nada
o que possa ser feito quanto a isso, né?!)
Após uma viagem frustrante em que nada queria dar certo, Ana,
no alto de seus 10 anos, voltava para casa. No banco de trás do carro de seu
pai, via a paisagem passar. Seus cabelos pretos esvoaçavam com o vento, que de
seus olhos claros arrancavam as lágrimas represadas.
Marcos, o pai de Ana, olha para trás. Sente muito pela
experiência que a filha teve, e resolve tentar melhorar as coisas.
Ainda triste, Ana começa a ver a paisagem mudar em sua
frente. Um som distante, que ia ficando cada vez mais próximo, envolve-a; então
diante de seus olhos, após o carro vencer as últimas montanhas, Ana vê, pela
primeira vez, o mar.
Um sentimento único a invade e a preenche por completo. O
verde de sua Íris brilha e seu corpo instintivamente dança ao som das ondas
quebrando na praia. Sem perceber, Ana abre os braços, como se deixasse o vento
levantar seu voo até a areia.
O carro para. Ana olha para o pai, esperando aprovação. Tão
logo recebe e corre calçada afora até o início da praia. Seus pés, já descalços
(para onde voaram os chinelos?) tocam a areia macia e quente. Sente como se
agora soubesse como é pisar em nuvens, e caminha agora em direção ao mar. Todo
aquele infinito de água cristalina a fascina, e andando agora mais devagar, chega
à areia molhada. Sente os pés afundarem um pouco, e hesita. Olha para trás,
outra anuência de seu pai.
Então, sentindo-se confiante e segura, dá mais um passo à
frente, mais um, mais um. Vê uma onda alcançar seus pés, e não segura a
felicidade de sentir a água do mar, gelada, pela primeira vez na vida.
Sentia como se aquele fosse o melhor dia da sua vida, de tão
leve que se sentia. Sua inocência de criança tornava tudo ainda mais singelo. A
lágrima de alegria dela, agora, se junta ao mar.
Um momento simples que, para Ana, parecia
infinito.
Nesta prisão, debato-me. Tento buscar a chave, quebrar as
barras. Cavar uma saída, quebrar as paredes. Mas minhas ações parecem em vão.
As pessoas que poderiam me ajudar, me jogam cada vez mais
para dentro. Me empurram, pisam, cospem, esquecem. Não lembram que eu, humano,
também sangro, também sinto.
Também choro.
Mas não tenho tempo a perder. Preciso achar uma saída! Minhas
lamentações não me trarão a liberdade. Sem ajuda, sem compreensão, mas com a
força de vontade que sempre tive.
(só mais este dia, vamos!)
E a cada afirmação minha, a cada vez que volto a acreditar em
mim mesmo, eu ouço o som das barras se rompendo, das paredes se rachando. O trabalho
é árduo, mas não há outro jeito.
Vou superar os tapas, as vozes, os pensamentos. Vou levantar
e forçar minha saída. Vou acordar e não mais ter este pesadelo. Vou, enfim,
abrir minhas asas que há tanto tempo não têm a liberdade de se mover. Voarei,
enfim, pelo meu próprio percurso.
E de tão alto, não mais ouvirei o que me prendia. Não mais
lamentarei a cela.